Processo: economizando energia para criar melhor
Atualmente, quando pensamos na palavra processo, é comum associá-la imediatamente à burocracia, sistemas, métodos, etapas e protocolos. Talvez por isso o termo cause certo estranhamento quando levado para o campo das artes. Afinal, a imagem que frequentemente construímos do artista é a de alguém que trabalha movido pela inspiração, pela liberdade criativa e pela espontaneidade.
Essa percepção também foi reforçada nos últimos anos pela popularização de conteúdos sobre produtividade, gestão e marketing, que transformaram a palavra “processo” em quase um slogan corporativo. Mas, antes de pertencer ao universo dos negócios, dos cursos ou das empresas, o processo já existia como uma característica fundamental da própria realidade.
Porque, no fim das contas, o que é um processo senão uma sequência de transformações?
Podemos compreender essa ideia por duas perspectivas: a definição do conceito e o fenômeno que acontece na prática.
Em sua forma mais simples, um processo é uma sequência organizada de mudanças que leva algo de um estado inicial a um estado final. Para que isso aconteça, três elementos estão sempre presentes: um ponto de partida, uma sequência de transformações e um resultado.
Quando você decide passar um café pela manhã, desenhar uma composição ou realizar uma tatuagem, esses três elementos já estão em funcionamento. Existe uma condição inicial, uma série de ações intermediárias e um resultado esperado. O que muda não é a estrutura do processo, mas a natureza da transformação que está ocorrendo.
Por esse motivo, processos não pertencem exclusivamente ao mundo da produção ou da administração. Eles estão presentes em praticamente tudo o que fazemos. São uma característica do próprio funcionamento da vida e, em grande parte, surgem como consequência de uma capacidade fundamental do cérebro humano: a adaptação.
Uma máquina de economia energética
Nosso cérebro possui uma característica extremamente interessante. Apesar de representar apenas uma pequena parcela do peso corporal, ele consome uma quantidade significativa da energia disponível no organismo. Por isso, uma de suas funções mais importantes é encontrar maneiras de reduzir gastos desnecessários.
Sempre que aprendemos algo novo, precisamos dedicar atenção, esforço e recursos cognitivos para compreender aquela atividade. Esse processo exige energia.
É por isso que atividades desconhecidas costumam ser mentalmente cansativas. Quanto maior a complexidade da tarefa e o tempo necessário para aprendê-la, maior tende a ser o desgaste cognitivo envolvido.
Uma forma simples de visualizar isso é imaginar a mente como a bateria de um celular.
Ao iniciar o dia, essa bateria está relativamente carregada. Conforme tomamos decisões, resolvemos problemas, respondemos mensagens, organizamos tarefas e lidamos com imprevistos, parte dessa carga vai sendo consumida.
Cada escolha exige um pequeno investimento de energia.
Individualmente, essas decisões parecem insignificantes. Mas, quando acumuladas ao longo de horas ou dias, produzem um fenômeno conhecido como fadiga de decisão. Em outras palavras, quanto mais decisões precisamos tomar, maior tende a ser o desgaste mental e menor pode ser a qualidade das escolhas feitas posteriormente.
Talvez por isso tarefas simples pareçam mais difíceis ao final do dia do que pela manhã.
É justamente nesse contexto que os processos surgem.
Ao repetir determinadas ações, o cérebro passa a identificar padrões. Com o tempo, esses padrões se transformam em caminhos familiares, exigindo cada vez menos esforço para serem percorridos. O que antes demandava atenção consciente passa a acontecer de forma mais automática.
Criamos processos porque nosso cérebro está constantemente procurando maneiras de economizar energia.
O processo no fazer artístico
Quando relacionamos essa ideia ao campo das artes, um certo estranhamento costuma aparecer.
Existe uma crença bastante difundida de que a criação acontece de forma livre, quase espontânea. Como se a obra simplesmente surgisse pronta a partir de um impulso criativo.
Mas basta observar qualquer artista experiente durante seu trabalho para perceber que a realidade é diferente. Existe uma sequência de observações, pesquisa, experimentação, erros, ajustes, correções e refinamentos. Existe método.
Mesmo quando o artista afirma não possuir um processo, geralmente ele possui. Apenas não o nomeou ainda. Muitas das ações realizadas durante a criação foram internalizadas ao longo dos anos até se tornarem quase invisíveis para quem as executa.
O estado de fluidez criativa que muitas vezes chamamos de flow não surge da ausência de estrutura. Frequentemente ele surge justamente porque uma parte da estrutura já foi absorvida pelo corpo e pela mente.
Quanto menos energia precisamos gastar para resolver problemas básicos, mais recursos ficam disponíveis para lidar com questões criativas complexas.
O processo como lugar da criação
Naturalmente, nosso olhar tende a se fixar na obra pronta: o desenho finalizado, a pintura concluída ou a tatuagem aplicada. Mas a criação não acontece apenas no resultado, ela acontece durante o caminho. O artista suíço-alemão Paul Klee expressava algo muito próximo dessa ideia ao afirmar que a arte não reproduz o visível, mas torna visível. Todas elas emergem de uma sequência de decisões, descobertas, correções e acidentes que acontecem durante o percurso.
Sob essa perspectiva, o processo deixa de ser um obstáculo entre o artista e a obra. Ele passa a ser o próprio espaço onde a obra acontece.
Criando caminhos para preservar energia
Quando desenvolvemos um processo, não estamos apenas organizando tarefas. Estamos criando um caminho previamente percorrido pela mente, reduzindo a necessidade de decidir constantemente qual será o próximo passo. Na prática, isso pode significar:
Separar todos os materiais antes de iniciar uma tatuagem.
Possuir um roteiro para conduzir atendimentos.
Estruturar etapas claras para desenvolver um desenho.
Utilizar formulários para coletar informações dos clientes.
Criar padrões para organizar referências e arquivos.
Todas essas ações transformam escolhas repetitivas em trajetórias conhecidas. Uma boa metáfora seria imaginar uma trilha aberta dentro de uma floresta. Sem essa trilha, cada passagem exige uma nova decisão sobre qual caminho seguir, tornando a trajetória mais densa, mas com ela, o deslocamento acontece com menos esforço, permitindo que a energia seja direcionada para aquilo que realmente importa.
Processo e criatividade não são opostos
Talvez a ideia de processo não esteja relacionada à organização, mas à continuidade. Processo é a estrutura que permite que o movimento continue. Por isso, nas artes, o processo não é o oposto da criatividade. Em muitos casos, ele é justamente aquilo que torna a criatividade sustentável ao longo do tempo, preservando energia, organiza a atenção. E permite que a imaginação seja aplicada exatamente onde ela possui maior valor: naquilo que ainda não existe e precisa ser criado, abrindo caminho para novas possibilidades de composição e ideias.
